2023

Prefeitura Municipal de Rodelas

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SÃO JOÃO 2019 É NA TERRA DO COCO

Fonte: ASCOMRodelas
23/05/2019 às 10h16

Noticia

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“O SÃO JOÃO DA VELHA RODELAS: UM REENCONTRO COM A NOSSA HISTÓRIA”

Como fazemos todos os anos nos festejos juninos escolhemos um tema específico para ornamentação e organização de nossa festa maior, O SÃO JOÃO. Neste ano o tema será “O SÃO JOÃO DA VELHA RODELAS: UM REENCONTRO COM A NOSSA HISTÓRIA”

OBJETIVOS

Resgatar a nossa história mais recente, buscar as nossas referências, raízes familiares, nosso torrão natal, além de servir como fundamentação para a criação do MUSEU DE RODELAS.

HISTÓRICO

Quem examinar com atenção o mapa do Estado da Bahia encontrará o nome de uma cidade na margem direita do Rio São Francisco, no trecho em que ele serve de limite entre a Bahia e Pernambuco. Naquele trecho o S. Francisco se alarga o suficiente para abraçar várias pequenas ilhas. A cidade em questão tem o nome de Rodelas. Na outra margem do rio ficam as localidades pernambucanas de Belém do S. Francisco e Itacuruba. Com cerca de 4 mil habitantes, sustentando-se com os recursos provenientes de modesta atividade econômica, Rodelas nasceu de um aldeamento indígena fundado por missionários. Ali estiveram procurando converter e aculturar os nativos, e sucedendo-se nesse trabalho, os capuchinhos franceses, os franciscanos, jesuítas, carmelitas e, finalmente, os capuchinhos italianos. Mas, seus primeiros dias, como núcleo povoado, também se confundem com as entradas promovidas, desde a cidade da Bahia, pela Casa da Torre, a cuja sesmaria aquelas terras pertenciam. Perto dali os sertanistas construíram currais para o gado solto nas vastas pastagens. Por ali estiveram nas andanças que os iriam levar ao Piauí e às áreas ainda mais ao norte.

Começo de Tudo

A história de Rodelas há de começar, para fixar-se nas raízes mais profundas, com o pecuarista Garcia d'Ávila, cujos descendentes continuaram, nos sertões baianos, sua obra de desbravamento e colonização iniciada em 1552 no litoral norte da Bahia desde o bairro do Rio Vermelho, onde então era o limite de Salvador. E continuará, para marcar a grandeza de um passado rico de tradições, beleza e glória, pelo capuchinho francês, fr. Francisco de Domfront, ao que se sabe com segurança documental, a primeira palavra de Deus vivida entre nós - quatorze anos. Seguiram-se a este, durante onze anos, os jesuítas; e, depois de um silêncio de quatro anos, quando não se tem informação da presença de missionários, mas, segundo Serafim Leite os jesuítas podem ter voltado, especialmente para Rodelas, os carmelitas por onze. Os franciscanos parece que estiveram presentes só no Sorobabé, onde continuaram mesmo depois da vinda dos carmelitas, não em Rodelas. Finalmente os capuchinhos italianos durante 150 anos. Com efeito, o descobrimento da aldeia dos índios rodelas, ocorrido entre 1641 e 1646, vem a partir da expansão dos currais dos Ávilas. E o ciclo das missões catequéticas se inicia com fr. Francisco de Domfront entre 1670 e 1671, para encerrar-se com o capuchinho italiano, Frei Luiz de Gúbio em 1862, e lá se iam cento e noventa anos de missão.

A colonização da aldeia de Rodelas, na Bahia, como da extensa região sertaneja que recebeu, durante muito tempo o nome de Sertão de Rodelas, estava iniciada com os currais dos Ávilas. E já aí, tomando-se por base a data do requerimento da sesmaria do Rodela, 1646, ia-se a um século e meio do descobrimento do Brasil e um século da fundação de Salvador. Diziam os autores do requerimento que haviam "povoado de gado" as terras descobertas. E se "povoaram de gado", com este ia o vaqueiro, fosse branco ou negro, mameluco ou mulato, empurrando a colonização. Na verdade era tudo isso. Os Ávilas, donos dos bois e das terras são-franciscanas, já se sabe terem sido duas vezes descendentes de índios, e, levando consigo os seus negros.

Dos Fazendeiros Descendentes dos antigos meeiros dos Ávilas forma-se a Vila de Rodelas

Muito curraleiros de 1779 são descendentes dos que o foram antes, a partir de 1646, do mesmo modo que os do século XIX, são em parte descendentes daqueles do século anterior, relacionados. É certo que quando os padres franceses chegaram, em 1671, 1672, já havia rendeiros-curraleiros, o depoimento de Martinho de Nantes dá informação de alguns deles. Parte desses que viveram os currais do século XVIII, como tantos outros que os viveram no século XIX, eram gente nova, a tradição menciona até portugueses recém-chegados da pátria para "fazer o Brasil". Ainda havia muito espaço desocupado. Porque os filhos dos curraleiros de 1779 chegaram ao século XIX e os destes ao século XX, os nomes do passado continuam presentes em nossa gente. Os Gomes e os Sá, por exemplo, que vêm, possivelmente, do sargento-mor Antônio Gomes de Sá, procurador da Casa da Torre em 1696 e talvez de algum seu colateral, estão plantados entre nós para os séculos dos séculos. Bem assim os Rodrigues, os Carvalho, que poderiam descender dos irmãos Domingos e Francisco Rodrigues de Carvalho, os Pereira, talvez sangue de colaterais dos Ávilas no ramo Pereira Gago. Muitos dos ancestrais poderiam ser identificados ainda hoje pelos descendentes do século XVIII. É nome conhecido dos seus descendentes de hoje, Bernardina Ramos de Assunção, que viveu em Rodelas na segunda metade do século XIX, morrendo bastante idosa. Seu pai, Lucas Fernandes de Rezende, foi morador no Sorobabel, onde ela, possivelmente nasceu. Em 1779, vivia no Sorobabel, uma Bernardina, filha de Manoel da Roxa de Souza e sua mulher Maria Ramos de Souza. Essa Bernardina, que residia com os pais, era a sexta filha do casal, e seria, então, criança. As moças se casavam cedo. Poderia ter-se casado com Lucas Fernandes de Rezende, vindo a ser mãe daquela Bernardina Ramos de Assunção.

Francisco Rodrigues Lima, genro de Domingos da Fonseca e Azevedo e pai de Domingos Rodrigues Lima, viveu em Rodelas entre a primeira metade e a segunda do século XIX. Em 1779 um Domingos Rodrigues, ainda em começo de vida, porque não tinha filhos, residia na fazenda do Rodela, com sede na Praia, mesmo lugar que foi o de Francisco Rodrigues Lima e parte de seus descendentes diretos. É quase certo que seria pai ou avô deste Francisco, talvez pai. Tenha-se em conta a freqüência com que as pessoas dão o nome dos pais e avós a seus filhos. Por seu lado, o Domingos Rodrigues de 1779 seria filho ou neto de um dos irmãos Domingos e Francisco Rodrigues de Carvalho. Destaque-se que além desse Domingos Rodrigues - ou Roiz, naquele ano de 1779 existiam, nas fazendas relacionadas, dez outros Rodrigues - ou Roiz. O primeiro desses, na fazenda Tabuleiro, logo abaixo de Curral dos Bois, o último, na fazenda Ipueira Danta, acima de Ibó. Poderiam, ao menos em parte, ser gente do tronco dos irmãos capitães Rodrigues de Carvalho.

O primeiro Lima da região, referido em documento antigo, é Francisco Pereira Lima, no ano 1700, em Cabrobó. Seu tempo se não corresponde ao de Francisco Rodrigues de Carvalho, 1670, no mesmo local, está muito próximo. É possível que as famílias se ligassem pelo matrimônio para dar nome aos Rodrigues Lima da atualidade. Os nossos Rodrigues Barbosa poderiam vir desses mesmos Rodrigues Lima com o tronco dos Barbosa moradores da fazenda de Rodela em 1779. Por sinal, o nome Barbosa é bastante freqüente entre os moradores da época.

As primeiras fazendas plantaram-se à margem do São Francisco, cobrindo áreas extensas. E nem toda a margem se apropriava aos currais. Em seguida vieram as margens dos rios secos e até dos pequenos riachos onde se encontrasse um veio de água aflorada ou local viável para a cacimba.

Na sesmaria dos Rodela no trecho à margem do São Francisco entre o Xingó e o Salitre, as áreas ocupadas fora da beira-rio, não eram muitas e na atualidade ainda é assim. A terra de caatinga é pobre, seca e ruim, prevalece o chão improdutivo, léguas e léguas desérticas. A calamidade das grandes estiagens, não é de hoje, sempre existiu. Nos velhos tempos o recurso do cacto como ração era utilizado com fartura, por isto mesmo, hoje é praticamente esgotado.

Vale destacar que a população escrava correspondia a mais de um quinto - 22%, do total de habitantes da área. Muita gente. Não se fala em escravos índios. Talvez já não existissem então, até porque, seguramente não se sujeitavam ao trabalho escravo e lhes era muito fácil fugir, estando na sua caatinga da qual conheciam todos os meandros. Poderiam estar na classificação dos agregados, como simples trabalhadores da fazenda. Avaliava-se a fortuna pela posse do escravo. Rico que se prezasse, curraleiro que se quisesse dar como bem situado, devia ter escravos. Em geral não tinha uma boa casa, com um mínimo de conforto. A cama costumava ser de couro e muitas vezes as portas internas, como, aliás o geral dos utensílios, borracha para água, alforje, sacos de transporte de carga, mochilas de milhar os animais e tantos outros objetos - por isso mesmo alguém cognominou de civilização do couro. A ostentação da fortuna apresentava-se no número de escravos e cabeças de gados, nos bons cavalos de montaria, sela e carona bem trabalhadas e tacheadas à prata, bridas, estribos, rebenque, esporas de prata, um cadeirão na sala e a rede no alpendre, os cordões de ouro apresentados à missa, pela patroa.

Missão de Rodelas ou Missão de Rodela foi o primeiro nome do povoado, nascido ao lado da aldeia, como fartamente indicam os registros dos missionários. Entre os bens arrolados em 1881, no inventário de Domingos da Fonseca, consta "uma casa no lugar denominado Missão de Rodela". Digamos que o povoado se firmou com o nome de Missão de Rodelas, até porque essa foi a grafia utilizada nos documentos dos primeiros tempos e registrada na história.

Até 1931, Rodelas eram, praticamente, o grupo indígena e pessoas outras que viviam em função das ilhas e dos terrenos de vazante da beira rio, alguns lavrando terra própria, outros na condição de meeiros ou trabalhadores diaristas da lavoura, gente pobre, em geral os descendentes de escravos, agregados e vaqueiros. Aí moravam também os homens de comércio, que podiam ser ao mesmo tempo fazendeiros e proprietários de terra, utilizando-se, para o trabalho da lavoura, de meeiros ou de diaristas, também chamados de trabalhadores de aluguel. Compravam pele de bode, peles silvestres e algodão, que renegociavam em Juazeiro. Vendiam tecidos, bebidas, sal, fumo, instrumentos agrícolas, como machado, enxada, facão e outros produtos e miudezas não produzidos na localidade. As lojas tinham variado sortimento, que ia do tecido à rapadura e o mercado de fumo. Havia uma feira semanal, no Domingo, que reunia as gentes da redondeza, abrigando-se os feirantes em barracas montadas e desmontadas toda semana. Somente na segunda década do século XX se construiria um barracão para a feira. Moravam aí, também os barqueiros. Era o tempo do transporte fluvial, através de barcaças, que navegavam até Juazeiro e até Jatobá e do transporte cargueiro - tropas de muares. Em Jatobá e Juazeiro estavam os terminais de estrada de ferro que partiam de Piranhas e de Salvador. Piranhas é um porto fluvial que se entronca com o porto marítimo de Propriá, este, interligado aos portos de Aracaju, Maceió e Recife, que, a esse tempo, se faziam ligar a Jatobá por aquele pequeno trecho ferroviário. As barcas levavam os produtos locais, traziam os de fora. Vinham de Jatobá especialmente o sal do mar - sal grosso, ensacado - e filtros de arenito, artefato de produção daquela povoação altamente requisitado na região beradeira do São Francisco - alguns outros produtos procedentes do comércio do litoral norte. Vinham de Juazeiro os tecidos, a bebida, instrumentos agrícolas, outros produtos, em parte adquiridos aí, em parte comprados na praça de Salvador por via dos caixeiros-viajantes, que representavam o comércio grossista. Não se importavam farinha, arroz e outros cereais, nem açúcar, salvo em escassa quantidade.

A produção local de farinha e cereais sustentava o consumo. Como substituto menos custoso do açúcar, usava-se a rapadura, de produção local ou descida do Rio Grande via Juazeiro, ou do Cariri, pelo transporte de carga. Da região chamada de Freguesia - Antas, Cícero Dantas, em transporte cargueiro vinha o fumo em rolo. Os barqueiros não se limitavam à prestação do serviço de transporte de mercadorias. Antes, ao lado do fretamento de mercadorias, exerciam o comércio de porto em porto. Vendiam e compravam tudo que fosse objeto de comércio na região. Saiam de Jatobá carregados de sal e pedras de filtro e paravam de porto em porto, vendendo-os. Voltavam carregados de rapadura e quanto produto fosse requisitado no rio de baixo, igualmente vendendo o produto de porto em porto. Eram os chamados regatões ou negociantes da carreira do rio. Barqueiros de que se tem memória em Rodelas: Saturnino José de Almeida, que pessoalmente acompanhava a sua barca. Faleceu moço e mais adiante o seu filho Lucas José de Almeida foi barqueiro, por pouco tempo. O major João Alventino Lima possuiu uma embarcação na carreira do rio, mantendo esse negócio por via de um administrador. Ao falecer, ficou à frente de seus negócios, o Sr Frontino, irmão da viúva. Anos depois, José Alventino Lima, que era criança quando faleceu o pai, assumiu todas as suas antigas atividades, inclusive a da navegação, que dirigiu pessoalmente. José Lima demoraria pouco no ramo, deixando-o para realizar o curso de medicina. João Francisco da Fonseca, primeiro marido de Maria Merandolina da Fonseca - Sindinha, e João Miranda da Fonseca, irmão desta, também foram barqueiros em seu tempo. João Miranda veio a ser substituído na atividade por Pedro Fernandes da Fonseca - Pedro Bastiana, que adquiriu a embarcação. Outro que em seu tempo exerceu a atividade de barqueiro, foi Manoel José da Fonseca, conhecido por Manoel Cazusa.

Os fazendeiros - já não havia os grandes curraleiros, sim, pequenos criadores -, numa fase de assinalada pobreza da pecuária, a não ser que tivessem estabelecimento comercial no povoado, moravam cada qual na sua fazenda, embora alguns deles tivessem casa no povoado, que utilizavam durante os dias das novenas de São João e quase só. Na fazenda, cuidavam melhor de seus animais - bode, boi e cavalo. Pelos anos de 1929/1930, o medo de Lampião tangeu as gentes do campo para Rodelas, como foi no alto nordeste baiano, as pessoas correndo para a cidade mais

próxima. Então, o povoado e a aldeia, tinham o aspecto de povoação única, sem distinção, a não ser pelas casas caiadas, de cá e as casas de taipa, de lá. Diga-se que não eram ricas as casas caiadas, uma ou outra se destacava como maior, apresentando um floral no frontispício. Havia um único sobrado - o da família do major João Alventino Lima, já então falecido, que fora, no seu tempo, talvez o melhor patrimônio da localidade, senhor de engenho, pecuarista, comerciante e proprietário de barca, portador do título oficial e da espada da majoria. Os caboclos - não se dava mais o nome de índio ao remanescente indígena – os morenos e os brancos trabalhavam sua pequena lavoura em igualdade de condições, viajando para as ilhas nas mesmas canoas, uns dando carona aos outros, conforme fosse a precisão do momento, sem queixas que se soubesse. As queixas e rusgas só surgiriam após a instalação do Posto Indígena, uns escorando os outros: os possuidores de terra com medo que os índios, apoiados no governo tomassem os seus pedaços de chão - não haviam propriedades grandes - os índios achando que as terras eram suas e lhes foram tomadas, querendo-as agora de volta. Foi mais ou menos assim nos primeiros anos do Posto Indígena dos Tuxá de Rodelas.

Acontecia em Rodelas alguma coisa diferente dos demais latifúndios. Proprietário único por mais de dois séculos, foi a Casa da Torre, todos os mais eram rendeiros seus, alguma coisa como agregado, devendo obediência. Os índios, de quem as terras foram tomadas nos primeiros tempos, situavam-se agora, apenas e muito mal, nas ilhas.

Com o retalhamento, pela venda a diversos, da sesmaria da Casa da Torre, as pessoas que compraram parcelas do latifúndio, eram os chamados rendeiros, uns, talvez descendentes dos antigos arrendatários, outros, detentores, por compra, das benfeitorias e direito de arrendamento, outros mais, rendeiros recentes. Queriam o título de propriedade apenas para garantir a área usada em arrendamento. Como a cabeceira da fazenda era na margem do rio, partindo daí para o centro, a regra foi comprar uma extensão de terra delimitada na beirada, com demarcação de umas tantas léguas de fundo, dimensão suficiente a alcançar o espaço ocupado na caatinga. As ilhas, após extinta a missão, passaram à propriedade do Estado de Pernambuco, que as entregou a administração da Prefeitura local. Esta, arrendava-as miudamente, em áreas medidas a braças. Os remanescentes indígenas que ocupavam cinco ou seis delas por delimitação do Governador Geral do Brasil, João de Lencastro em 1669, em cumprimento a determinação da Coroa, perderam-nas uma a uma, ficando reduzidos à que se chamou ilha da Viúva. Além dessa, algum caboclo isoladamente conservou algum pedaço em outras ilhas, e, quanta área a Prefeitura considerasse não ocupada ou desnecessária aos caboclos, ia arrendando a outras pessoas. Isso, foi, seguramente, um avanço no patrimônio da antiga aldeia. Mas, havemos de considerar que a população de origem indígena estava muito reduzida e a descendência de rendeiros, vaqueiros e escravos, tão pobre quanto aquela, era bastante mais numerosa.

Por outro lado, o que lhes restou de posse, foi sendo vendido pelos próprios caboclos. O comprador, com o instrumento de compra do domínio útil em mão, ia à Prefeitura da Jurisdição, Belém do São Francisco e arrendava a área correspondente a essa posse. E, pedaço em pedaço, com pouco os índios não tinham terra para a sua lavoura. Não é dizer que vendessem as sobras, não, venderam tudo. E agora, as duas partes se consideram donas. Daí as queixas, que puseram as duas povoações divergentes. O Serviço de Proteção ao Índio, com Posto instalado em Rodelas, jamais deu a solução da terra necessária ao trabalho do remanescente indígena que tutelou e tinha por dever amparar, talvez porque cedo entendesse as razões de tanta gente pobre em uma terra igualmente pobre, tanto em economia, quanto em terrenos agricultáveis. Eram, praticamente, as ilhas e as terras de vazante da beira rio, estas ainda mais escassas que aquelas, umas poucas dezenas de rezes. De modo que, os índios ficaram sempre com a ilha da Viúva e só. Como benefício, além de irrigar a ilha, a FUNAI criou uma escola na aldeia, regida por uma professora leiga, diga-se. A primeira regente possuía um título - sobrinha do Chefe do Posto. Seu marido também teve um emprego na Casa. A que iria substituí-la mais adiante, integrava a aldeia. Deve ter sido uma boa mestra; fora aluna de destaque da Professora Dulcina Cruz Lima. Fora a irrigação da ilha, a escola e algum benefício pouco significativo, o Posto Indígena de Rodelas teve uma realização: acirrou os ânimos entre o descendente do índio e o descendente do vaqueiro ou agregado. A médio prazo a situação se acomodou e o relacionamento voltou a ser o anterior, uma povoação com os mesmos problemas e dificuldades, a mesma pobreza, as mesmas necessidades materiais, sem assistência médica oficial, sem estradas, um padre na desobriga anual do São João.

A partir de 1929, o povoado cresceu com a vinda da gente do campo, como forma de proteger-se contra o assalto dos bandidos. Da igreja para cima, a aldeia; da igreja para baixo, o povoado. Divisa, simbólica, poder-se-á dizer, era a igreja, com um pequeno espaço livre entre os dois agrupamentos populacionais. Em primeiro plano a igreja de São João Batista, provavelmente a mesma erigida pelos missionários em tempos remotos, nos primeiros anos da colonização, talvez pelos jesuítas. Se houve uma primeira igreja, construída pelo missionário Francisco de Domfront, é possível que não fosse mais que uma pequena capela de taipa, assim se construía no sertão desses longes.

Garcia D'Ávila II, havia entrado em Rodelas em 1646, talvez antes, e fr. Francisco de Domfront chegava em 1671, mais cedo que fosse, em 1670, cinco, seis anos anos de espaço entre os dois. A afirmativa do requerimento da sesmaria dos índios Rodela, foi, em 1646, a de que "havia povoado de gados" aqueles sertões. É provável que nesse 1671, em Rodelas, possivelmente na Praia, já estivesse situado um curral. Talvez em Várzea Grande e Sorobabé, Penedo e Tapera para baixo, para cima em Araticum e na Barra do Tarrachil. Poderia ser na sede da fazenda, localizada na Praia, um quilômetro acima da aldeia indígena, poderia ser na aldeia. É mais provável que fosse na aldeia; os índios Rodela revelaram-se amigos dos portugueses muito cedo, não é impossível que se relacionassem ainda em 1639, na guerra contra os holandeses e o padre, mesmo não sendo missionário, mas capelão somente, tinha interesse em mostrar Cristo aos índios. Já existiria uma capela quando padre Domfront chegou a Rodelas? Certamente não. As missas de desobriga poderiam ser rezadas debaixo de uma latada, foi assim nos primeiros tempos, a primeira missa do Brasil realizou-se em campo aberto, altar improvisado. É possível que a primeira capela se fizesse com a chegada do missionário, que dispunha de tempo integral e sem prazo entre os índios.

Os primeiros mestres-escola

Voltemos ao começo da década de trinta. Seriam umas quarenta casas no povoado, outro tanto, um pouco menos, na aldeia. A alfabetização era a do mestre-escola, pago pelos pais do aluno. Logo, não seriam muitos os alunos, era uma gente muito pobre. As crianças em idade de escola, estavam também na idade de ajudar no trabalho. Conta-se de mestre Lucas - Lucas Evangelista de Almeida, como mestre-escola, que, entre outros, teve como aluno o Dr. José Alventino Lima. Para trás dele, não há memória. Vamos anotar que José Pedro de Almeida - Cazuzinha, avô de Lucas, foi um homem de boas letras e talvez ensinasse aos próprios filhos, que todos eles sabiam ler, sendo os do primeiro casal - Lúcio e Saturnino - razoavelmente letrados. Na fazenda, tínhamos por esse tempo, o mestre Manoel Rufino, descido de Patamuté ou Barro Vermelho, que agrupava os meninos das vizinhas fazendas Nonô, Rapador, Barro Branco e Salinas, alguns do Moreira. Com a mudança dos fazendeiros para Rodelas, ele acompanhou os seus alunos, que aí, possivelmente somaram-se com outros. Deve ter começado pelos fins de 1929, durando pouco, pois em 1930 viria a professora Alice Cantarelli, não formada, mas bem preparada. Houve um ano bonito, de escola moderna, com ensino de arte e poesia. Alice vinha de Itacuruba, em Pernambuco, havia cursado a escola normal, deixando-a antes de diplomar-se. Só ensinou durante um ano. Foi, sem dúvida, a precursora. Em 1931 seria a vez da Polícia Baiana na educação do povoado, representada na pessoa do mestre-escola - Cabo Otílio, integrante do destacamento. Parece que em 1932 foi Vasco Moura. Em 1933 seria a professora Dulcina Cruz Lima, a grande educadora de Rodelas, de quem terei oportunidade de falar longamente. Recém-formada em Recife, veio como professora pública de sua terra, nomeada pelo Governo do Estado da Bahia. Tinha 20 anos de idade. Dedicaria toda a vida à sua terra e a sua gente. Não se casou para ter dedicação a filhos; só a Rodelas, à escola e aos alunos se dedicava. Por longos anos, o único destaque de Rodelas, a única boa referência, foi a escola de Dulcina, alguma coisa como uma pequena universidade, de titular único, atendendo com amor, sem distinção de índios, morenos e brancos, matrícula rodando os sessenta alunos. Dulcina deu vida nova a Rodelas, preparou os caminhos não só para a educação, hoje bem desenvolvida, com duas escolas de formação de professoras, mas para o desenvolvimento.

A Igreja de São João Batista, marco do crescimento da Vila-cidade

A igreja de Rodelas não era mais que uma capela, cujo frontispício, muito pobre, sem torre, sem florais, sem beleza, subia dos laterais em ângulo agudo. Único destaque, o São João Batista da Porta da Igreja, no seu nicho. No altarzinho muito modesto, um outro São João Batista. Era uma edificação modesta e sem beleza, mas sólida, construída a pedra e cal, grossas paredes para resistir aos séculos. Na enchente as águas do rio batiam-lhe quase no topo do cais, até que um dia levaram-no em parte. Um alto cais sobre o qual vinha o muro do cemitério – em seguida a este, a 10, 12 metros, a parede lateral da igreja, cuja frente dava para as cabeceiras do rio. Ficava, assim, o cemitério rente ao oitão da igreja, tomando todo o seu comprido e indo uns metros além, para o lado de cima. Em um nicho cortado na parede frontal estava o São João Batista de Rodelas - dizia-se São João Batista da Porta da Igreja, para distinguir do São João Batista do Altar, este, uma imagem de madeira. O da Porta da Igreja, trabalhado em um bloco maciço de pedra, cara larga, à feição do índio, hoje posto no alto de um pequeno mastro à frente da igreja da nova cidade, havia quem doutrinasse, era, na verdade, São João Evangelista. Reza a tradição que foi aparecido na cachoeira de Rodelas, pouco acima da aldeia, descoberto pelos índios canoeiros. Avisados do aparecimento, os padres foram vê-lo. Em seguida organizaram uma procissão fluvial, muitas canoas, trazendo-o para a igreja, onde foi posto no altar. Dia seguinte havia desaparecido. Voltara para o seu lugar no rio. A procissão se repetiu e segunda vez o santo retornou ao seu pedestal, na cachoeira, olhar voltado para as nascentes. Alguém teve a idéia de colocá-lo à frente da igreja. Para isso abriu-se um nicho na parede e lá ficou o santo a cavalheiro das águas do seu rio, vendo-as descer no sentido do mar. Essa história, não mais que uma lenda, vinha contada de geração para geração. Em que tempo o aparecimento, não encontra-se informação. Quanto ao cais da igreja sobre este a parede do cemitério, cabe o registro de que aquele que vinha dos primeiros tempos foi levado por uma enchente grande, sendo reconstruído, ou pelo menos recuperado, ao que se informa, por D. Idalina Lima, viúva do major João Alventino Lima. Nessa oportunidade, o rio

levou, consta, porção de restos humanos. Afinal o cemitério foi sepultado pela barragem de Itaparica, conjuntamente com a igreja, a aldeia e a já então cidade de Rodelas. Nem um marco se pôs neste lugar, para indicar o chão do antepassado.

De volta à igreja, para continuar o retrato da terra. Para o lado de baixo, o convento. Havia um convento ou assim chamávamos, copiando o nome transmitido pela tradição. Uma comprida e baixa casa de taipa construída sobre alto alicerce que lhe servia de cais, a antiga morada dos padres missionários. Quando o conheci, ai morava uma família de índios. Por esse tempo, os frades haviam ido mais de setenta anos antes. Para cima, era a aldeia. Havia um espaço que pode ser estimado em 30 metros, mais ou menos, entre a igreja e a primeira casa, formando uma passagem para o rio, o qual, mais adiante seria ocupado por três residências da gente branca. Em frente à igreja, onde se dizia "do lado do mato", havia uma meia dúzia de casas de taipa, ocupadas pelos morenos. Para cima a aldeia. Pequenas casas de taipa, baixas, unidas parede a parede, aliás, parede-meia, em duas filas, uma do "lado do rio", outra do "lado do mato", salvo a separação por becos que facilitavam a movimentação.

Ao fim da aldeia o cemitério que veio a substituir o da igreja, construído seguramente pelo Antônio

Conselheiro, em uma de suas primeiras paradas na descida de Pernambuco, antes de fixar-se em Canudos, via Chorrochó. Esse Campo Santo, apesar de edificado em área da aldeia, servia a toda a população de Rodelas. Realmente nunca houve distinção na morte, sempre igual para todos. O cemitério anterior, obra dos missionários, também servia a toda a população. Quando se construiu um terceiro cemitério, assim continuou sendo, como o é, hoje, com o Campo Santo da Nova Rodelas. Em frente ao cemitério, um cruzeiro erguido sobre um mirante bastante elevado e espaçoso, ladeado de balaustrada, onde as pessoas costumavam ir a passeio nas tardes de fim de semana ou onde paravam no ensejo da visita aos seus mortos. Para cima do cemitério, vinha o cercado de mestre Elias Moura - mestre Pedreiro, que, com a instalação da Aldeia dos Tuxá, seria demolido, criando um largo espaço, aos poucos ocupado por novas moradas de índios, Essa aldeia que conheci na década de 30, era a mesma dos primeiros tempos, certamente com alguma alteração. As modificações se davam muito lentamente, ora crescendo, ora diminuindo o fluxo populacional, em um aglomerado humano que, na antiguidade, ia de 130 para 600 pessoas e retornava de 600 para 130, em razão de perseguição, guerra e fuga, desentendimento entre currais e missões, isso é histórico. A partir de 1929, ampliar-se-ia em número de casas no correr dos anos até à inundação de 1988, sem perder nunca o aspecto. Sempre a mesma coisa, casas enfileiradas uma ao lado da outra, duas alas, frente a frente, já agora algumas de alvenaria, rebocadas e caiadas.

Para baixo da igreja, a partir de um pequeno beco de separação com o convento, vinha a "povoação dos brancos", os descendentes dos colonizadores. Eram também casas coladas umas às outras, muitas de meia parede, com a diferença única, para as da aldeia, de serem de alvenaria e caiadas, algumas de beira-bica trabalhada. Uma ou outra com um floral na fachada. Isso se modificaria totalmente a partir de 1935, 1936, quando nos chegou um pedreiro de nome João Batista, um mestre no polimento à colher - cimento queimado - Depois de reconstruída a primeira frente de casa, com parapeito e reboco a cimento branco polido e salpicado de variada cor, houve uma febre, todos queriam aquela beleza. E a velha beira-bica de cornija e os raros floreios trabalhados carinhosamente por mestre João Gualberto Freire, o artista dos florais, ou pelo seu mestre ou o mestre deste e outros na sucessão dos tempos, cederam lugar à platibanda, e, não raro, à fachada polida.

Benevides Gonçalves da Fonseca; Manoel Gomes da Fonseca - Nonô; Lucas Gonçalves da Fonseca; Pedro Fernandes da Fonseca - Pedro de Bastiana; Lucas Fernandes da Fonseca, sucedido por sua viúva Bernardina Ramos de Assunção; Vitória Angélica da Fonseca; major João Alventino Lima, possuidor do único sobrado; Saturnino José de Almeida, sucedido por sua viúva Firmina Ramos de Sá; Lúcio José de Almeida, sucedido por sua viúva Rosinha da Fonseca Lima; Domingos Rodrigues Lima; João Gualberto Freire; Vítor Cazusa; capitão Eustáquio Tolentino da Fonseca; Florentino Gomes da Fonseca; possuíram casa residencial no povoado. Outros, que não ficaram memorizados. Não seriam certamente os primeiros, por exemplo Domingos da Fonseca, antes de quase todos estes, teve aí uma residência, como se faz declarado em seu inventário. Muitos desses moravam na fazenda - quase todos -, e vinham ao povoado nos dias de feira, nas datas festivas da igreja, especialmente no São João. Em 1930, quase todos já não existiam. Novas gentes eram proprietárias dessas casas, havidas pela herança ou por compra. Muitas delas estavam divididas em duas, ora em razão da crescente pobreza, ora em razão da escassez de espaço para novas construções. Rodelas espremia-se para os lados entre o rio e um depressão sujeita a alagamento em oportunidade de enchente mais elevada, no comprido entre a igreja e uma propriedade rural. A rua era bastante larga, tinha, pode-se dizer, largura de praça. Mais ou menos na parte central do povoado, posto bem no meio da rua, existia um barracão, onde funcionavam dois estabelecimentos comerciais - lojas, se dizia, reservando-se uma área alpendrada em toda a extensão do imóvel, correspondente a dois terços da edificação, para a realização da feira semanal. Lojistas aí eram Domingos Almeida e Manoel dos Santos. Em 1968, essa rua foi mesmo transformada em praça - Praça Dr. José Lima - recebendo um jardim central em toda a sua extensão.

O agrupamento de morenos moradores em frente à igreja, um agora, outro depois, cederia espaço aos brancos, por venda de suas casas, indo construir novas residências mais para o fundo - por detrás da Rua, se dizia -, mais ou menos confronte às residências anteriores, chamando-se ao novo agrupamento, inicialmente, de Rua dos Morenos ou dos Raposos. Diversos morenos que antes de 1930 residiam fora da povoação, em casas espalhadas no Alto do Sabará, talvez como os fazendeiros, por medo a Lampião, foram-se agrupando, aos poucos, nessa nova rua. A partir desse

agrupamento residencial, nasceria a rua D. Bosco, em frente aos muros das residências dos primeiros tempos, em toda a sua extensão. Os chamados morenos ou "raposos" eram em regra descendentes de branco e negro. Os descendentes de branco ou de negro com índios, quase sempre integravam-se à aldeia e aí residiam.

Os índios Tuxá

Em 1862 o último missionário, frei Luiz de Gúbio, capuchinho italiano, deixava a Missão de Rodelas. A aldeia havia sido entregue ao padre da freguesia de Glória nove anos antes, em 1853. Logo dois anos depois, em 1855, denúncias de furto e dilapidação do patrimônio da tribo, envolviam o administrador da aldeia, o pároco de Glória e o Juiz Municipal de Geremoabo. A gente índia de Rodelas era uma tribo de tradições e renome e mereceu a atenção do governo. Em 1857 designava-se fr. Luiz de Gúbio para reorganizá-la. Este, ao cabo de cinco anos, dava por finda sua tarefa. Achava que já não havia espaço para a permanência da missão, os índios, cerca de 130, contados adultos e crianças, estavam aculturados. A Missão de Rodelas era a ultima que saía do centenário projeto missionário do São Francisco, as outras já não existiam, os caboclos haviam-se dispersado ou permanecia algum resto deles em aglomerados sem qualquer organização. A partir daí, ia-se também a velha aldeia do herói Francisco Rodela, sua gente entregue à própria sorte. O que se salvara de índios, buscou, a partir de então, manter-se agregado para salvar-se, e assim foi durante mais de oitenta anos sem dispersar-se. Extraordinário exemplo de crença no próprio destino e de persistência na luta, esse, do nosso caboclo, que soube manter o espírito de corpo e a solidariedade entre as pessoas. Simples intuição, vontade de ser, valores espirituais aprendidos dos missionários em dois séculos de catequese, resquício da cultura nativa. Eram uma família e uma família continuaram sendo, todos juntos, um por todos, todos por um. Seu patrimônio em terras, tudo que restava da avalanche anterior, se resumia a algumas ilhas, isso mesmo sem o título oficial de propriedade. E iria encurtando dia a dia, ano a ano, ou porque as ilhas, integradas ao patrimônio do Estado de Pernambuco, fossem sendo arrendadas a outras pessoas pela autoridade que as administrava, ou porque, na parte apossada pelos indígenas, fossem sendo vendidas, pedaço aqui, pedaço ali, individualmente, pelos seus ocupantes, para cobrir necessidades pessoais ou familiares prementes. Tudo, de todos os pobres, em todos os lugares, com todos os povos é assim. A necessidade obriga a vender o patrimônio para matar a fome e em seguida, quando não há mais o que vender, a fome sempre mata.

Rodelas era, agora, uma vasta pobreza, os ricos morreram e os seus filhos, acrescidos oito, dez por casal, de geração em geração, estavam tão esgotados quanto as caatingas, as secas mais constantes, os recursos naturais reduzidos a quase nada. A Casa da Torre já se havia retirado da pecuária local e só lhe restavam as terras e benfeitorias plantadas em suas fazendas - currais, cercas, tanques e cacimbas feitos em tapera. Em 1842 iniciava a venda das propriedades no sertão do Pambu e até já as vendera no Piauí. Em 1857, depois de anuladas escrituras anteriores, para cuja assinatura o procurador não tinha a uxória, negociava todo o sertão do Pambu e Geremoabo com uma única pessoa, o capitão Antônio Simões de Paiva, que se encarregaria de repassar as propriedades aos rendeiros. Os pecuaristas, antigos rendeiros e ex-vaqueiros e seus descendentes, poucos e de poucas rezes, que quando chegavam a uma centena eram uma fortuna, um ou outro com mais que isso, ocupavam espaços sempre mais distantes do São Francisco, nos seus afluentes secos, onde houvesse uma minação, para usar a pastagem natural, na beira rio esgotada. No comprido da margem do rio, ficavam os que se dedicaram à lavoura, aproveitando as nesgas de vazante para a cultura anual de mandioca, batata, feijão de corda, milho e melancia, e mais que isso, para a criação de algum bode. Em Rodelas, os descendentes de índio salvos da hecatombe, porque dispunham da única terra boa para a lavoura, aquela que não dependia de chuva - as ilhas irrigadas e adubadas naturalmente pela enchente anual do rio, chegavam a ser a gente de melhor condição de vida. A cobiça e mesmo a luta pela sobrevivência, ingredientes da economia em todos os tempos e em todos os lugares, com todas as raças, representadas nas pessoas de maior posse, procuraram apossar-se das ilhas. E os remanescentes do índio, desprevenidos do futuro, iam vendendo pedaço a pedaço, e, assim, empobrecendo em igualdade de condições com os remanescentes do vaqueiro e do escravo. Mas, sempre unidos especialmente na revivência de suas tradições culturais, os caboclos mantinham o espírito tribal e jamais deixaram de ter-se como índios e índios dizer-se, não obstante os muitos cruzamentos negros e brancos, mais freqüentes nos tempos pós-missão. E porque se consideravam índios, aprenderam a entender que o Governo tinha o dever de apoiá-los contra os que exploravam. De tanto pleitear e reclamar e lutar pelos seus direitos preteridos alcançaram ser atendidos pela FUNAI, que criou um Posto Indígena em Rodelas. Era 1944 e se haviam passado 82 anos do último missionário. Dos velhos tempos não devia restar ninguém, talvez um ou outro macróbio que fosse criança em 1862. Nesse 1944, das suas ilhas, tradicionalmente ocupadas desde antes das missões, restava aos caboclos a ilha da Viúva, e nem toda, parte dela já fora vendida. Reagrupados os remanescentes dos índios rodelas e organizada a aldeia, sob a direção da FUNAI, a ilha da Viúva, e só esta, foi despejada de algum ocupante estranho à raça e entregue a eles para o seu trabalho.

A aldeia recebeu, então, o nome de Tuxá – Tribo Tuxá. Sem dúvida a opção nominal foi dos remanescentes, que de há muito assim se autodenominavam. Temos a confirmação disso, em um documento local, anterior à reinstalação da aldeia. A Ata da Festa do Dia da Juventude realizada a cinco de setembro 1941 pela Escola Estadual Felipe dos Santos, regida pela Professora Dulcina Cruz Lima, confirma que os Tuxá já assim de autodenominavam há esse tempo: "... à margem do belo São Francisco uma regata onde alguns jovens, verdadeiros titãs do remo, na maior parte descendentes da tribo Tuxá, que habitou a aldeia de Rodelas, deram uma demonstração da força e da habilidade com que costumam vencer as águas do grande caudal".

O que realmente prevalece é o nome da nação procás, chamada de rodela pelo colonizador português, e parece que dela, como um ramo familiar, nasceu o Tuxá - caboclo de flecha e maracá, como os próprios remanescentes se dizem. Certamente - isso ficou em registro dos primeiros tempos, e porque vem dos primeiros tempos é irretorquível -, o nome Rodela apareceu, como já se registrou, com o cacique do grupo de 200 guerreiros nativos que Felipe Camarão recrutou no Rio São Francisco para guerrear, ao seu lado, os holandeses.

Desse tempo, apresenta-se uma relação dos caboclos que ainda conservavam o nome indígena; os nossos índios sempre gostaram de exibir os seus valores, e porque os perdessem de geração para geração, criam alguma fantasia. Uma coisa é certa na relação: trata-se de pessoas com nítidos traços fisionômicos indígenas. Talvez fossem de sangue puramente nativo. Essa é a lista: 1 - João Gomes - Apaco Caramuru; 2 – Cordolina Batista - Tuchá Zumbi; 3 - Maria Clara - Tuchá Tenni; 4 - José Luiz da Cruz - Cá Arfer; 5 - Manoel Dias - Cá Quatix; 6 - Águida Dias - Cá Quatix; 7 - Joana Dias - Cá Cangat; 8 - Eduardo Luiz da Cruz - Jurum; 9 - Antônio Brune de Assis - Arquia; 10 - José Brune de Assis - Flechiá; 11 – Maria Maciana - Quaquicá; 12 - Luíza de Souza - Jurutumpan; 13 - Martins Maciano - Pripiri; 14 - Maria Pequena - Quaqui; 15 - Manoel Umbá - Canca Aribá; 16 - Leocádia da Conceição - Juncá; 17 - Leocádia Barbosa - Atairá; 18 – Augusto Manoel - Araçá; 19 - Rufino de Araújo - Cataá; 20 - Adauto Misael - Tupacaí; 21 - Bernardina Maria – Travan Chuá; 22 - Virgínia Gomes- Parratar; 23 - Carmina Gomes - Carraté.(2) Da relação, pelo menos Carmina Gomes - Carraté, viúva de João Leonardo, ainda vive em 1996, quando faz-se este registro, sendo que seu filho Ormando, é o pajé da tribo.

Vinte anos depois, segundo relato assinado pelo Agente Roberto Floriano de Albuquerque a 31 de dezembro de 1964, o posto era "composto de 336 almas aldeadas, de ambos os sexos: maiores, masculinos 74; femininos 89; menores, masculinos 86; femininos 87; residentes em casas construídas de tijolos, cobertas de telhas e parte de taipa, num total de 54 casas, todas construídas pelos índios com seus próprios esforços, formando uma vila alinhada com o plano da cidade de Rodelas, iluminada com energia da Hidrelétrica do S. Francisco - CHESF numa área de 336 metros lineares de frente, à margem do rio S. Francisco, localizada no Estado da Bahia". Era o crescimento populacional de 50%, muito bom como vegetativo.

Tushá, é a grafia de William D. Hohenthal Jr. em seu relatório de visita a aldeia dos Tuxá em Rodelas, realizada entre 1951 e 1952. "TUSHÁ: PIT Rodelas é um posto; há como 200 índios descendentes da tribo Tushá morando na aldeia que é uma continuação da rua principal da pequena e pobre "cidade" de Rodelas. A sede do posto e a aldeia estão situados na beira meridional do Rio São Francisco. As únicas terras oficiais que possuem os Tushá são na ilha da Viúva... Antigamente, segundo as informações tribais, o seu território aborígine incluía as ilhas do Jatobá, da Porta (ou da cajueira), do Meio (ou da Craibeira), do Serrote e de João Boa (ou de Baixo), todas perto de Rodelas, e toda a extensão do rio desde a ilha do Sorobabel até a ilha de Assunção, um longo trecho de território fluvial. Mas, de qualquer maneira, a ilha da Viúva não satisfaz as necessidades quanto a terreno, dos Tushá. Eles precisam de mais terras". Disse bem, não satisfazia realmente.

Segundo suas observações e a coleta da notícia local, os tuxá de Rodelas viviam em melhor situação antes da instalação do posto, que depois. A razão escreve, é que "anteriormente os fazendeiros locais empregavam os índios como peões, pagando-lhes pelo trabalho. Quando foi estabelecido o posto, os índios abandonaram seu emprego na esperança que o governo lhes forneceria terreno para cada um". Não se deu a solução da terra que chegasse a todos os aldeados, e eles ficaram "na posição de não ter nem emprego (pois outros indivíduos foram utilizados), nem terrenos próprios. Resultado, muitos dos homens emigraram para São Paulo, para buscar emprego, deixando atrás as famílias, que agora passam miséria". As ilhas tradicionalmente pertencentes aos índios Rodela, dos quais remanescem os Tuxá. Os nomes mudam-se com os tempos e os hábitos. Rua Felipe Camarão (Morada dos remanescentes dos índios rodeleiros-Tuxá)

"Aos (22) vinte e dois dias do mês de abril do ano de (1963) hum mil novecentos e sessenta e três, a Prefeitura Municipal de Rodelas, representada pelo Prefeito Manuel Moura e o Serviço de Proteção Indígena, representado pelo Chefe do Posto de Rodelas, Sr. Manoel Olímpio Novais, estabelecem uma linha divisória dos terrenos pertencentes ao aldeamento e à Prefeitura Municipal de Rodelas, que será devidamente marcada, com dois pilares a serem levantados pelo Sr. Manuel Moura, Prefeito Municipal, um no alinhamento do oitão leste, isto é, lado de baixo da casa de José Brune e o outro (10) dez metros acima do canto norte do cemitério municipal (cemitério novo), para servirem de fácil exame e verificação. Com o acordo ora celebrado, as partes - a Prefeitura Municipal de Rodelas e o Serviço de Proteção Indígena, Posto de Rodelas, dão por encerrado o antigo litígio quanto aos ditos limites, no que são unanimente acordes, inclusive no reconhecimento de que nenhuma das partes fica prejudicada. Vale lembrar neste termo, que o limite ora adotado, coincide exatamente com a antiga pretensão da maioria dos atuais remanescentes da tribo Tuchá, em Rodelas aldeada. Essa pretensão resultou na construção de um pequena cerca de arame que

dividia a rua, partindo das imediações da casa de José Quelé, para a casa de José Brune, tendo sido feita pelo Posto de Proteção Indígena de Rodelas. Cada uma das partes ficará com uma via autêntica deste termo, fazendo o uso que desejar e uma terceira via, também autêntica, servirá de base para o arquivamento da ação movida pela Prefeitura Municipal de Glória, quando a ela pertencia o atual município de Rodelas, contra o Serviço de proteção Indígena, na pessoa do Sr. Manoel Olímpio Novais. Assim, para constar e para que tenha real valor em todos os foros, lavrou-se o presente termo, que depois de lido e achado conforme, vai assinado pelo Sr. Manuel Moura, Prefeito Municipal e pelo Sr. Manoel Olímpio Novais, Chefe do Posto do Serviço de Proteção Indígena de Rodelas.

A CIDADE DE RODELAS

Ao lado da aldeia, nasceria o lugar denominado Missão de Rodelas. A aldeia, originariamente, chamava-se Curumbabá ou Corumbabá (encontram-se registradas as duas grafias) e era habitada pela nação procás.

Depois de passar pela jurisdição eclesiástica, civil e judiciária de Pambu e Glória, o povoado seria elevado a cidade pela lei n. 1.768, de 30 de julho de 1962. Era Governador da Bahia o Desembargador Adalício Nogueira, sendo deputado estadual o coronel PM José Elói de Carvalho, que requereu e defendeu a emancipação na Assembléia Legislativa e a conseguiu, contando com a participação do deputado estadual Antônio Brito, o apoio do deputado federal Manoel Novaes e a entusiasmada solidariedade dos políticos locais Domingos José de Almeida, Manuel Moura, José Alventino Lima, Estêvão Freire da Fonseca e Antônio Justiniano da Fonseca. Deu-se a instalação do município a 7 de abril de 1963, com a posse do prefeito e os vereadores eleitos no ano anterior.

Candidato único, em conciliação dos dois partidos então existentes na localidade, PSD e UDN, foi prefeito o Sr. Manuel Moura, sendo a Câmara de Vereadores, constituída pelos seguintes edis: Antônio Justiniano da Fonseca, Manoel Florentino da Fonseca, Nelson Gomes de Menezes, Manoel Claudolino de Almeida, José Soares de Almeida, João da Mata Fonseca e Carmelita Cruz, cabocla integrante da aldeia dos Tuxá, onde era professora. O vereador Antônio Justiniano da Fonseca, que vinha de ser Presidente da Câmara Municipal de Glória durante duas legislaturas consecutivas, foi eleito Presidente da Câmara do novo Município e reconduzido durante todo o período legislativo. João da Mata renunciou, abrindo vaga ao primeiro suplente Demóstenes Almeida Silva.

Até 1933 Rodelas não contava senão com o mestre-escola, simpática figura de leigo que, como se costumava dizer, desasnava. Em 1933, ancorou em nosso porto fluvial, a professora e mestra Dulcina Cruz Lima. Chegava a tempo de realizar a matrícula para o ano escolar, incorporando uma turma de 60 alunos. Deus faz todas as coisas boas e certas da vida; as más devem ser artes do diabo, como ensinaram os missionários. Para Rodelas jamais traria nada igual a Dulcina. Não apenas ensinou abnegadamente até quase o dia de morrer, mas construiu uma civilização entre

caboclos de sangue e caboclos de hábito. Quando dormiu, Rodelas tinha duas escolas de segundo grau, a nível de formação de professor e contabilista, graças à semente de seu amor e o adubo do seu estímulo. Sua nomeação é de 17 abril, tendo recebido o número de cadastro - 2155. A posse

ocorreu a 2 de maio de 1933. Eleitos os gestores em 1962, a nova cidade teve sua instalação em 7 de abril de 1963 com a posse dos vereadores e do prefeito. Os vereadores eleitos deslocaram-se

para Glória, onde o juiz eleitoral os empossou. No mesmo dia, de retorno a Rodelas empossaram solenemente o prefeito Manuel Moura. Houve muita festa, discursos e foguetes, os escolares em desfile pela nova cidade.

Com uma área de 2.823 quilômetros quadrados, segundo dados do IBGE/BA, o Município de Rodelas integra a micro-região homogênea - Corredeiras do São Francisco. Distrito de Glória criado em 1922, pela lei municipal n. 18, de 29 de abril de 1922, ratificada pela Lei Estadual n. 1582, de 17 de agosto de 1922. Rodelas estava, agora, elevada à categoria de município. Nessa

categoria, continuaria sob a jurisdição da Comarca de Glória, onde vinha desde que esta fora criada, por desmembramento da Comarca de Geremoabo, conforme o Decreto-lei estadual 512, de 19 de junho de 1945. A cargo de Glória, continuaria também a jurisdição eclesiástica. Logo mais, viveríamos a era Paulo Afonso, povoação que nasceu como caótico acampamento de cossacos quando se construía a barragem e rapidamente cresceu e se fez cidade. Foi criada a Comarca de Paulo Afonso, por transferência da sede da Comarca de Glória, sendo esta reduzida a termo, a 3 de março de 1966. A partir daí o Município de Rodelas, integrado ao agora Termo de Glória, ia para a jurisdição da Comarca de Paulo Afonso, até à recente criação e instalação de sua comarca.

Em 1948, no Governo Eurico Dutra, sendo Ministro da Educação e Cultura o baiano Clemente Mariani, fora construído, em adminsitração direta, com a supervisão local do Sr. Manoel dos Santos, um prédio escolar que se dizia "Escola Rural de Rodelas" e isso foi o ponto de partida para o surgimento do bairro Alto do Sabará.

Muitos anos depois, na segunda gestão independente do município de Rodelas, esse prédio, que se encontrava em ruína, foi reconstruído e readaptado para receber o ginásio, depois escola normal, que se chamou Centro Integrado Governador Luiz Viana, administrado pela CENEC. Os recursos para a reedificação foram concedidos pelo Governo do Estado, por recomendação pessoal do Governador Luiz Viana Filho. Este seria o segundo estabelecimento de ensino de segundo grau implantado em Rodelas, tendo o primeiro nascido na gestão do Prefeito Manuel Moura.

Com a emancipação, uma das primeiras obras do Prefeito Manuel Moura, foi a construção de um aterro em parte da várzea inundável e um cais, possibilitando a abertura de mais duas artérias - a rua Domingos Almeida e a rua Manuel Moura, que receberam placas nominativas na gestão seguinte. A tarefa imediata ao aterro e o cais, foi a ampliação da rede de eletricidade, ainda com postes de madeira, mais pobres que os da primeira rede, para iluminar as duas novas artérias. Essa rede seria crescida no início da gestão seguinte, com material igualmente modesto, para o Sabará de Cima e rua Miguel Soares, logradouros que nasciam, alcançando os Colégios Nossa Senhora do Rosário e Dulcina Lima. Viria, no Governo Luiz Viana Filho (1967 e 1971), a construção de uma nova e moderna rede de distribuição, cobrindo toda a cidade, os dois bairros e a aldeia, bem assim, de uma rede de eletrificação rural, cobrindo parte da margem do rio. Essa obra foi projetada e realizada pela Secretaria de Minas e Energia, na gestão do Deputado Federal Oliveira Brito, exercendo o cargo de Secretário. Há de destacar-se que foi uma obra de empenho pessoal do Governador e do Secretário, que nessa gestão marcaram o início do desenvolvimento local. O Sr. Manuel Moura, exercia, então, o cargo de Assessor na Secretaria e deu a sua participação para a realização da obra.

O Prefeito Manuel Moura ofereceu quatro anos de dedicação exclusiva e muito carinhosa ao seu município. Era uma cidade nascente e precisava de tudo, tudo merecia cuidado especial. A ênfase, no entanto, foi para a educação. A esse tempo Rodelas ainda vivia a era da escolinha funcionando em apertadas salas de aluguel. Por via de convênio MEC/ESTADO, o prefeito construiu, em quatro salas de aula, um primeiro prédio escolar especificado para duas salas. Os recursos de construção foram esticados para render o dobro. Havia urgência em realizar o sonho, jamais concretizado, de uma grande cidade. Aí instalou, em turnos diferentes, a Escola Estadual Osvalda Soares e o ginásio, depois Escola Normal Nossa Senhora do Rosário, administrada pelo Instituto Rodelense de Educação Gratuita - IREG. Viria, a seguir, a Escola Estadual Dulcina Cruz Lima, construída em duas salas, com recursos igualmente de convênio MEC/ESTADO e o Posto de Saúde.

As duas gestões seguintes, das quais a segunda foi de João Justiniano da Fonseca e a terceira teve como prefeito o Sr Estêvão Freire da Fonseca, em um mandato-sacrifício de dois anos, continuaram oferecendo prioridade à área educacional e outros prédios escolares foram construídos. Em convênio MEC/Prefeitura, construíram-se uma escola de duas salas na cidade e escolas rurais mantidas pela municipalidade com professoras formadas, em Olho d'Água, Tapera, Penedo e Churumela, e, com professoras leigas em Boa Vista da Tapera e Volta. A segunda prioridade para as duas gestões que se seguiram à do Sr. Manuel Moura, foi a rodovia. Com recursos próprios e muito escassos, rasgaram-se estradas vicinais, modestas, ao nível do solo, em toda a extensão do município. Para o alto, no sentido do rio, foi a estrada marginal Oiteiro, Araticum, Churumela, Barra do Tarrachil, percorrendo a margem do rio, o que facilitava o escoamento da produção agrícola, constituída essencialmente de cebola; para baixo, o acesso rodoviário a Itacutiara e a estrada margina//l Penedo, Tapera, Volta do Rio.

Texto – João Justiniano da Fonseca

Obra: Curraleiros, índios e missionários

Adaptação: Prof. Clemilton Cunha